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CONVOCATORIA DE PONENCIAS Y OBRAS ARTÍSTICAS
(Música, arte sonoro, arte visual, performance, instalación)

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A emergência contemporânea dos sistemas de inteligência artificial generativa transforma profundamente as condições de produção, de percepção e de conceitualização das formas simbólicas. Como demonstraram Galloway (2012), Hansen (2015) e Hayles (2017), os sistemas computacionais já não devem ser compreendidos como meros instrumentos exteriores à atividade humana, mas sim como entidades operatórias que participam ativamente na constituição do próprio campo sensível. Desde a emergência das artes tecnológicas, aliás, os artistas têm experimentado com instrumentos que impõem os seus próprios dados e parâmetros, conduzindo a uma co-agência primária e à complexificação da questão dos dispositivos (Foucault, 1961; Duguet, 1980; Brandon, 2021). A mutação em curso desde 2022, com a inauguração do ChatGPT pela OpenAI, impõe uma renovação radical da questão crítica: não se trata de analisar a IA a partir de uma posição exterior (impossível de sustentar), mas de desenvolver uma crítica intrínseca, experimental e integralmente co-agente, capaz de operar a partir do próprio interior dos processos computacionais.

A crítica da inteligência artificial não pode, de fato, constituir-se como uma metaposição. Ela exige uma co-agência, entendida como uma relação operatória na qual o artista e/ou o acadêmico se engajam no cerne dos próprios regimes de cálculo, das arquiteturas e dos fluxos de dados que produzem as formas (Mackenzie, 2017). Esta necessidade torna-se evidente desde as primeiras análises dos sistemas conexionistas, nomeadamente através da evidenciação dos vieses estruturais inscritos nos datasets e nas arquiteturas (Buolamwini e Gebru, 2018; Crawford, 2021). A co-agência constitui assim a condição de acesso à materialidade efetiva dos sistemas de IA, a qual não se reduz nem às suas interfaces nem aos seus efeitos perceptíveis, mas reside nos seus processos generativos, nas suas dinâmicas vetoriais e nos seus regimes de otimização. Estes sistemas já não constituem simplesmente objetos técnicos, mas meios operatórios no seio dos quais humanos e processos computacionais coproduzem configurações simbólicas e se questionam mutuamente, levando à constituição de novos mecanismos de alteridade (Le Coarer et al., 2026).

Trata-se, então, de continuar a desdobrar a nossa relação com a alteridade proposta pela antropologia no Ocidente. Tim Ingold (2017, p. 25) define este domínio do saber como "filosofia com as pessoas dentro"; consiste em "aprender com e aprender de"; abre um processo de vida que engaja uma transformação do próprio processo. Para François Laplantine (1987, p. 64), "o que o investigador vive, na sua relação com os seus interlocutores (o que reprime ou o que sublima, o que detesta ou o que valoriza), faz parte integrante da sua investigação". Assim, para Nicolas Bourriaud (2021, p. 186), a grande questão comum aos antropólogos e aos artistas é o ajuste dessa justa distância tomada em relação ao interlocutor (com a realidade no seu conjunto) que permite produzir saberes, em vez de reproduzir o que já é sabido.

No contexto atual, trata-se, portanto, de questionar e de interagir com a ontologia dos sistemas de inteligência artificial, que não pode ser pensada em termos de objetos, mas deve ser compreendida como uma ontologia relacional, vetorial e distribucional. A produção de imagens, sons ou textos pelos sistemas de IA não corresponde, pois, a uma simples reprodução ou recombinação de dados existentes, mas à emergência de novas configurações tornadas possíveis pela estruturação vetorial das relações internas ao modelo. Estes processos engajam formas específicas de alteridade que não se inscrevem nem na alteridade humana nem na alteridade técnica no sentido clássico, mas numa alteridade computacional resultante de dinâmicas estatísticas, arquiteturais e otimizacionais irredutíveis à intencionalidade humana (Boisnard, 2026). Nem que seja para explorar desde já o futuro momento crítico em que as IAs se autocodificarão e se autogerarão, precipitando o "take-off autopoiético" (Teubner, 1993) das alteridades computacionais; rebatendo, na mesma ocasião, as relações de classes sociais (Lordon, 2026).

Uma mudança na abordagem epistêmica está, por conseguinte, implicada. À semelhança das abordagens desenvolvidas nas epistemologias feminista e queer, nas fenomenologias críticas das estruturas sociais (Ahmed, 2006), nos novos materialismos (Barad, 2023) ou ainda nas análises do horror enquanto desestabilização das estruturas perceptivas (Trigg, 2017), torna-se necessário reconhecer o caráter situado, engajado e material da experiência. A crítica já não procede por distanciamento, mas por imersão e coparticipação nos processos estudados com total "respons(h)abilidade" – seguindo a reformulação de Donna Haraway (2016) –, ou seja, uma prestação de contas do agir que liga entidades humanas e não-humanas.

As práticas artísticas contemporâneas desempenham um papel central na exploração destes regimes de co-agência. Múltiplos trabalhos em investigação e em arte interrogam o que emerge das IAs generativas, tais como os de Jake Elwes (2021), que desvelam as estruturas normativas inscritas nos datasets e interrogam, a partir daí, o fenômeno queer. As experimentações sonoras generativas exploram, por seu lado, os regimes temporais e perceptivos próprios dos sistemas computacionais, enquanto as abordagens analíticas desenvolvidas no campo das cultural analytics (Manovich, 2020) permitem evidenciar as estruturas estatísticas e vetoriais que organizam as formas culturais contemporâneas.

Estas práticas artísticas e teóricas contribuem assim para a emergência de uma nova forma de crítica, fundada não mais na interpretação das obras como expressões intencionais, mas na análise dos regimes operatórios que tornam possível a sua produção. A crítica torna-se uma prática experimental onde, como expressa Boutet de Monvel (2023), se trata de injetar ruído, uma alteridade, no sentido de que o artista "se esforça por magnificar o ruído interno e/ou externo a um dado meio, contrariamente à engenharia, que procura suprimi-lo".

Este colóquio propõe, consequentemente, explorar as diferentes dimensões desta co-agência entre humanos e sistemas de inteligência artificial, examinando em que sentido esta repousa sobre formas de alteridade e de alteração que permitem revelar as potências próprias dos processos computacionais, reunindo artistas e acadêmicos oriundos de diferentes campos disciplinares.

Tema

Hibridación crítica en las prácticas artísticas

Otredad social y críticas de los espacios latentes

Otredad computacional y antropología: epistemologías queer y decoloniales

Autopoiesis y alteridades futuras

Otredad computacional: ontología y caracterización

Otredad, sesgos y el inconsciente de los modelos

Crítica de arte en la era de la IA

Curaduría de arte en la era de la IA

Bioarte Cuestiones éticas

Arte generativo (Arte con IA)

Arte interactivo y en tiempo real

Intermedia/Artes mediáticas

Arte cuántico

Robótica en el arte

Arte XR

Arte sonoro y música

Referencias

Ahmed, S. (2006) Queer Phenomenology: Orientations, Objects, Others, Duke University Press
Barad, K. (2023) Frankenstein, la grenouille et l’electron. Les sciences et la performativité queer de la nature, Asinami.
Boisnard P. (2026), The Algorithmic Unconscious: Structural Mechanisms and Implicit Biases in Large Language Models arXiv:2602.18468 [cs.CY]
Boutet de Monvel V. (2023) , « Cybernetic subjectivities on a loop : From video feedback to generative AI », in Necsus European Journal of Media Studies. vol. 12, no. 2.
Buolamwini, J.,Gebru, T. (2018) "Gender Shades: Intersectional Accuracy Disparities in Commercial Gender Classification » Proceedings of Machine Learning Research.
Crawford, K. (2021), Atlas of AI. Yale University Press, 2021.
Haraway, D. Staying with the trouble, Duke University
Galloway, Alexander R. (2012) The Interface Effect. Polity Press.
Hansen, Feed-Forward, 2015
Hayles, Unthought, 2017
Manovich, Cultural Analytics, 2020
Mackenzie, A. (2017). Machine Learners: Archaeology of a Data Practice. MIT Press.
Teubner, G. (1993). Le Droit, un système autopoïétique, PUF,
Trigg, D. (2017). The Thing - Une phénoménologie de l'horreur, Editions MF




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